sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014
RÉQUIEM
Sempre pego o papel e a caneta
como quem não quer nada.
Motivada por alguma canção,
Talvez.
Guardando na memória trechos
de poemas que ouvi nalgum lugar.
Em algum lugar, também, perguntaram-me
se morri - não - respondi.
De minha infância, lembro-me dos
quadros expostos na parede
tortos.
Das manhãs de domingo
não há recordações.
De minha família são poucos
os rostos que costumo lembrar.
São só sombras e pontiagudas.
Sempre quis tocar nas estalactites
daqueles rostos gélidos.
Ainda nova, a quietude do piso
de taco era tudo que eu tinha, e
um rádio onde podia me comunicar
com ninguém.
Não tinha amigos.
Para quê?
Não precisava.
As outras crianças não gostavam
das lagartixas,como eu gostava.
Preferia o céu, ele sempre descia
de noite.
As estrelas não me interessavam
todos podiam ver, eram sempre
iguais.
Gostava dos planetas
eles tinham cores e
eles estavam sempre lá.
Alguns gostavam das borboletas
Eu não.
Eram só falsa liberdade
Gostava mesmo era dos
corvos. Eles não precisavam
se preocupar em agradar ninguém
Eram felizes. Eu sei que eram.
Todas as noites, fazia uma casinha
com dominó, e nelas eu vivia
E quando ia dormir, não tinha
quem me contasse histórias
eu mesmo as inventava.
Nelas inventava um pai com
alma e uma mãe que brincasse
comigo aos domingos.
Não tive quem me cantasse
cantigas, eu mesma fazia
minhas sinfonias.
Descobri Drummond
ouvi Mozart, plantei
Baudelaire
Colhi Rimbaud
Com eles eu cresci, e hoje
perguntaram-me se morri.
Não.
- respondi
Avistei um corvo na janela
sorri.
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Palavrinhas do leitor