quarta-feira, 26 de março de 2014

DA REVOLUÇÃO



(Na foto: tio tony em sua revolução)


"Bem, você sabe
todos nós queremos mudar o mundo"

Ele sempre foi acostumado a fazer o certo, e assim mesmo, tudo que fazia era sempre errado.
Ele ouvia falar sobre a depressão, sobre a constituição, velha e nova república.
De democracia só entendia da sua própria. Gostava da palavra democracia porque começava com a letra D de dado, e no final do expediente de sexta havia os jogos de dados no bar.
De política só entendia da gravata borboleta de Getúlio Vargas. 
De golpe? Vai bem, obrigado. Faço aulas de luta aos finais de semana.
De guerra, inventava sua própria. Pintava a bandeira do seu partido sem muita frescura. As eleições não tomavam muito tempo, o voto era democrático. Sobre qual bebida seus amigos estariam de acordo em comprar.
Dividia seu cigarro, sim senhor, logo, bordou seu socialismo.
Era fácil traçar a divisão entre o certo e errado. Quem não gostava de pegar o bonde na rua São Paulo e descer até o clube era errado, já quem estava lá todos os dias, e de preferência com um isqueiro fácil, era certo.
Não entendia de ismos, preferia decorar o nome do whisky novo que seu zé tinha colocado à venda na mercearia.
De direita e esquerda, preferia mesmo era  ficar no meio da mesa do bar.

Seus amigos queriam mudar o mundo.
 Ele não entendia o motivo de tanto
alvoroço, pois
preferia mudar a si mesmo.

Quando todos começaram a falar de revolução, achou legal, queria fazer parte. Cansou de ser sempre o último a saber das coisas. Prometeu que faria uma revolução literária.

  Mas sem escrever uma única palavra.

Esperto que era, morreu sem ninguém saber. Dos anos 30, deixou só um bilhete na cama que dizia:

"Peça desculpas ao Vargas
 mas esqueci de fazer a tal
da revolução"

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