quinta-feira, 27 de março de 2014

SENT.IR



Parei de sentir as coisas
Ou só me convenci a não sentir mais.
A verdade é que prazeres, de todos os tipos,
 não me prendem mais.

Mas é claro que sentia.
Sentia o vento entrando pela fresta
modesta da janela.
Lá embaixo, algumas folhas balançando.
Sentia também a maciez da folha
em contato com a ponta da caneta
enquanto escrevia qualquer coisa sem
prestar muita atenção.

No parapeito da janela
a folha balança.

A fumaça do cigarro sabia que o melhor que fazia
era se afastar para bem distante.
Sentia meu olhar, já gasto, focar em
algum ponto invisível
com exatidão.
Sentia até o verde exorbitante das folhagens,
todas loucas para ficarem secas.

Sentia sim algumas mudanças já presentes
Meu café só era café se houvesse
uma dose de conhaque disfarçada
metida no meio.
Daniel quem me ensinou o truque do conhaque
um dos poucos prazeres que tenho hoje.

E por falar em prazeres
perdi todos.

Do prazer de poucos amigos a uma boa noite de festa
Um novo rótulo de cerveja sobre minha mesa
um bom livro, uma boa música
uma boa companhia,
nada.
Nada mais era prazeroso
Nem mesmo o sexo.
Com esse já até deixei de me importar.

Os únicos prazeres ainda selados em mim
são os de assistir um bom filme e tomar café com o Daniel.
Nada além disso.

Perdi, também, o prazer em escrever
Mas neste insisto, sei que é momentâneo
então encontro nestas poucas linhas
algum tipo de salvação barata.

Vivo por me contradizer e a culpa é toda minha
Com olhos vagos, acabo intrigando alguém
que passa desapercebido em uma estação
qualquer do trem.

Minha própria valsa é triste e com insistência
eu tento convencê-los disso.
Esquecendo de convencer a mim mesma
que ter alguém até que faz bem.

Aproveitando a deixa
gostaria de dizer que mesmo sendo triste
eu sei amar.
Porém, namoro a mim mesma
seria insensato demais depositar minhas
angústias naquele trovador loiro.

Por hora, me reconheço como um furacão
deixo que as ventanias passem por aqui,
destruindo qualquer coisa por dentro.
Reconstruo depois.

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