Então ali estava eu. Parada atrás da faixa amarela do metrô, vendo minha imagem refletida nas portas de segurança. Enquanto Cássia Eller cantava sobre malandragem na minha playlist, misturado ao barulho ambiente de conversas e passos apressados, abre e fecha de portas sincronizadas.
O que via no reflexo não era nada além do que já estava acostumada. Eu mesma.
Porém um detalhe me prendia a atenção. A camiseta que usava não era minha.
Em um ato de pressa havia pego a primeira camiseta solta no guarda-roupas. E não só a camiseta não era minha. O quarto, a cama e a casa também não eram.
Minha mesmo era só a pressa. E uma pontada de amor que crescia enquanto escutava uma respiração tranquila vinda do outro lado do quarto.
Meu mesmo, era o só o amor.
E agora estava ali parada, com aquela camiseta. Se me perguntassem de quem era, eu ensaiaria uma risada e não saberia responder.
"É do meu namorado."
Então essa palavra dançaria na minha boca, meio incerta, fazendo graça.
Que coisa.
Encarei outra vez meu reflexo e como em um daqueles filmes onde você vê toda a sua vida passando na frente dos seus olhos, vi todos os meus versos desfilando ali.
Vi minhas poesias de tantos amores não vingados. Vi as páginas do meu livro sendo apagadas, uma a uma, ficando todas vazias. Por fim, vi todas as minhas expectativas se cruzando, dando as mãos e acenando.Tchau.
Das lembranças, mandei-as embora.
Das certezas, me desfaço de todas.
Das expectativas, fico com as que me enganaram.
Como nos meus sonhos ripongos, onde minha ideia de relacionamento seria um maluco de estrada que me pegaria pelas mãos e me levaria para conhecer as Cordilheiras. E seria parecido com o John Lennon.
Relacionamentos? Não sabia nem soletrar.
Dos monogâmicos achava uma chatice. Uma mentira construída nas bases morais da sociedade.
Essa coisa toda de um cuidar do outro, datas comemorativas, ciumes, finais de semana juntos, ligações, fotos bonitas, almoço na casa dos pais. Abominava todas.
Entendia mesmo era de drama. Dos romances que não davam certo, e que no fim, davam belos textos regados em boêmia.
Do amor, só achava bonito o que era livre para ir, e quem sabe, por simples insistência do destino voltar, ou não.
Achava bonito porque é mais fácil rimar amor com dor.
Engraçado que, agora, difícil mesmo é reparar no teu sorriso e fingir que ele não fica mais afável junto com o meu.
Difícil é não achar graça na sua cara de sono, no seu quarto bagunçado e nos adesivos de adolescente colados no seu guarda-roupas.
Difícil mesmo, é negar que a tua melodia combina tanto com a minha.
E então ali estava eu. Confrontando meu reflexo em uma estação de metrô. As portas se abrem e o reflexo vai embora. Arrisco dizer, que junto com ele, minha insegurança e medo de sentir também.
Relacionamento, namoro, paixão, companheirismo. Não me importa o nome.
Porque se é mesmo esse tal de amor, que continue sendo leve, igual tuas mãos me despertando com o sol do meio dia.
E que seja tudo, menos poesia, porque como Cazuza já dizia, o amor na prática é sempre ao contrário.
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Palavrinhas do leitor